A cor do preconceito
Um insuspeitável preconceito no futebol brasileiro revelou-se no mundial da Alemanha. Dida foi o primeiro goleiro negro da seleção dos últimos cinquenta e seis anos. E tudo porque a posição ficou estigmatizada para atletas negros em razão da tragédia de 1950, na final com os uruguaios, em que Gighia virou o placar com um gol, em um chute seco quase dentro da pequena área. Barbosa, o goleiro negro, carregou toda culpa pela derrota e morreu sem ser perdoado. Trinta anos é a pena máxima no Brasil, mas a dele, queixava-se, já havia excedido esse tempo. Negros não são bons goleiros, foi a sentença final, o gatilho para desencadear o descabido preconceito.
A razão poderia ser apenas de ordem técnica se não fosse o caso Pelé. Enquanto jogou dobrou o preconceito da mídia e dos torcedores diante de seu formidável talento. Mas mal pendurou as chuteiras e uma imensa mão preconceituosa, guiada péla mídia, tratou de buscar um substituto para o seu reinado. Zico, branco de origem portuguesa, foi o escolhido. Cultuado com fanatismo, o seu brilhante futebol se restringiu as conquistas do Flamengo. Fracassou em cinco Copas, três como jogador, depois como supervisor técnico e a última agora como técnico. E dexou suas marcas negativas, embora camufladas na mídia. Basta lembra que cortou o mulato Romário, campeão em 1994, outra vítima do preconceito, da seleção em 1998, sob alegação de que não reunia 100% de condições físicas e Romário de propósito disputou uma partida, jogando bem, ainda antes da seleção estrear na Copa. E 1998 foi o ano do primeiro vexame da era Ronaldo. Mas antes, em 1986, Zico teve o seu dia de Barbosa minimizado na mídia quando perdeu um penálti no final do jogo contra a França, nas quartas-de-finais. Diferente do mulato Cerezo, que ficou para sempre estigmatizado por ter recuado um bola que Paolo Rossi interceptou dando origem ao gol que mandou o Brasil para casa em 1982. Zico continua com ídolo da torcida brasileira. Pelé é o negro metido, tolerado porque o mundo o reverencia. Romário, outro negro metido, só foi convocado para o mundial de 1994, porque havia o fantasma do Uruguai, em uma partida no Marcanã, pelas eliminatórias, que decidiria o ingresso para a Copa. Romário deu um show de bola. Foi para a Copa e venceu, quebrando o jejum de 24 anos. A decisão final nos penaltis contra a Itália foi ridicularizada na mídia nacional. Na chegada ao Brasil,a seleção foi detida na alfândega por trazerem produtos considerados como contrabando. Confiscaram uma churrasqueira a gás de Zagalo, um som de fulano e muito mais. Romário sempre foi considerado um negro arrogante, metido, diferente de Pelé apenas pela irreverência, na opinião da mídia e torcida. Cerezo foi para o ostracismo.
Hoje nós vivemos a era Ronaldo, chamado Fenômeno, em uma operação de marketing, que se iniciou em 1997, com o contrato de patrocínio da Nike. Um grande jogador no começo da carreira, mas muito abaixo de Pelé, Romário, Rivelino Jairzinho, Sócrates ou mesmo o Zico. Depois perdeu-se na fragilidade emocional, culminando em crises nervosas e catatonia em campo. Mas fez um completo arranjo de mídia, futebol e interesses comerciais. Considerado como branco, apesar de ser mulato, é o querido da mídia e da torcida, junto com Zico. Jogou o mundial da Alemanha sem a mínima condição física, nesse que foi o pior conchavo da história do futebol brasileiro. Gordo, desajeitado, numa Seleção Vendida por razões políticas e comercias, em uma operação na qual ele foi o elemento chave. Ronaldinho Gaúcho, humilhado por Pedro Bial em uma entrevista, durante a Copa, é o Barbosa dessa vez. Mas ele joga no campeonato europeu e o mundo o adora. O outro negro, Robinho, que seria o grande nome dessa Copa, foi impedido de jogar. A mídia francamente antipática minimizava suas atuações espetaculares, realizadas em pouco mais de 15 minutos de cada partida, dando preferência ao branco Juninho Pernambucano.. A revista Veja, usina de preconceito, ainda achou um meio de criticá-lo, ao fazer o inventário do fracasso da seleção de Parreira, por ter cumprimentado Zidane após a entrega do jogo e ainda acintosamente poupou Ronaldo, no rol de culpados, o craque da superação que agora usa um belo chapéu dado por Zidane....Numa seleção de mamelucos, mulatos, negros a existência de preconceito é uma piada. Mas não dá para rir...Contudo, reunir toda história dos injustiçados no futebol brasileiro só seria possível em um estudo que resultaria em uma alentado livro.